Imagine abrir um aplicativo, encontrar alguém que tem laranjas sobrando enquanto você está com mangas demais no quintal e, em vez de deixar as frutas estragarem, dar um match. A dinâmica, apelidada pelos próprios usuários de “Tinder das Frutas”, está conquistando brasileiros, inclusive moradores de Mato Grosso do Sul, transformando alimentos que poderiam parar no lixo em trocas, doações e até novas amizades entre vizinhos.
A ideia surgiu com a influenciadora Gabriella Martins de Carvalho, criadora do aplicativo Quintal, de Brasília (DF). A iniciativa nasceu, literalmente, no quintal de casa, depois que ela se mudou para uma residência onde havia um enorme pé de fruta-pão.
“Me mudei para uma casa que tinha um pé enorme de fruta-pão [parente próxima da jaca], uma fruta que eu nem conhecia. Quando ele começou a produzir, vieram muitas frutas de uma vez e, como são grandes e pesadas, eu precisei colher, porque poderiam cair em mim ou nos meus cachorros”, conta.
Diante da quantidade de alimentos, Gabriella decidiu não deixar que a produção fosse desperdiçada. Com autorização da síndica, colocou as frutas em frente à residência para que os vizinhos pudessem levá-las.
“Quando vi aquele tanto de alimento, pensei que não fazia sentido jogar fora. Coloquei os frutos na frente de casa para os vizinhos pegarem, e praticamente tudo foi levado. Foi aí que pensei em quantas pessoas têm manga, limão, abacate, fruta-pão ou qualquer outra coisa sobrando no quintal e não sabem para quem dar, enquanto alguém ali perto poderia querer.”
Match de hortifrúti
“A adesão foi muito rápida. Em cerca de uma semana, chegamos a mais de 20 mil contas cadastradas e já temos pessoas de Mato Grosso do Sul participando também. Como esse crescimento aconteceu muito rápido, ainda estamos consolidando os números detalhados de cada estado”, afirma.
A comparação com o famoso aplicativo de relacionamentos não demorou a surgir nas redes sociais. O apelido “Tinder das Frutas” veio justamente do sistema de combinação de interesses.
“Por exemplo, eu tenho manga sobrando e quero laranja, outra pessoa tem laranja e quer manga. Se os interesses combinarem, acontece o match e a gente pode conversar para fazer a troca.”
Mas, segundo Gabriella, as trocas não são a única — nem a principal — forma de circulação dos alimentos. A maior parte dos anúncios, até agora, tem a doação como destino.
“Isso diz muita coisa. Acho que as pessoas não querem ver comida boa indo para o lixo. E acho que o Quintal pode ajudar justamente nisso: a usar a tecnologia para recuperar uma coisa que antigamente era muito natural, que era a troca entre vizinhos. Aquele ‘meu pé está carregado, leva um pouco para você’. Além de diminuir o desperdício, você aproxima pessoas que às vezes moram na mesma rua e nem se conhecem.”
Conscientização
Além de fazer alimentos circularem, a iniciativa também tem aberto espaço para a troca de conhecimentos e receitas. Foi o que aconteceu quando Gabriella compartilhou a colheita da fruta-pão nas redes sociais.
Entre as sugestões recebidas, uma chamou atenção: transformar a fruta em um petisco. “Uma delas é cortar bem fininha e fritar, como se fosse um chips. Eu fiz e fica muito gostoso, um petisco ótimo, inclusive para acompanhar uma cervejinha.”
“Às vezes, o desperdício também acontece porque a gente não conhece o alimento ou não sabe como aproveitá-lo. Então, essa troca de conhecimento também faz parte da ideia. Uma pessoa tem a fruta, outra sabe uma receita, outra quer receber. No fim, o alimento circula em vez de ir para o lixo”, conclui.
Confira:
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(Revisão: Dáfini Lisboa)









